Revista Retratos

Mar invade o rio na foz do São Francisco

Editoria: Revista Retratos | Irene Gomes | Arte: Simone Mello

10/12/2018 14h00 | Atualizado em 10/12/2018 14h31

A ilha do Cabeço fica bem na foz do rio São Francisco e faz parte do município de Brejo Grande (SE). Ali, na região chamada de Baixo São Francisco, o rio divide os estados de Alagoas e Sergipe, e deságua no Atlântico. Até os anos 1990, a comunidade do Cabeço vivia principalmente da pesca, mas também do cultivo de arroz e de coco. Foi nessa década, após a construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Xingó, que o mar invadiu o povoado.

Solitário no meio do mar, inclinado pela correnteza, o farol do São Francisco do Norte lembra a história do vilarejo que desapareceu na foz do Velho Chico. Instalado em 1873, o farol que orientou embarcações por mais de 120 anos ficava em terra firme, atrás da igreja do Bom Jesus, no povoado do Cabeço.

“A comunidade tinha mais ou menos umas 150 casas”, conta Chico, morador de Brejo Grande. “Tinha padaria, tinha escola... De lá pra cá, o mar derrubou tudo sem parar. Acabou cemitério, acabou tudo”, relembra, e prossegue em tom de brincadeira: “até defunto morreu afogado!”.

Paisagem do mangue seco à beira do mar
Ruínas da comunidade do Cabeço
Seu Manuel e a família exibem o peixe gereba

O mar avança

O pescador Manuel dos Santos, de 55 anos, hoje mora em Piaçabuçu, município do lado alagoano da foz do São Francisco, mas conta que já morou no Cabeço. “Isso aqui mudou muito! Eu me lembro de tudo, porque fui criado nessa fazenda. A fazenda Arambipe era muito grande, ia lá no meio mar. O farol ainda está no meio do mar, o resto, acabou tudo”.

Seu Manuel saiu do Cabeço aos 17 anos: “quando começa a não dar certo mais, a gente já vai procurando outro meio.... e daí por diante. A pescaria tá devagar, devido ao Rio São Francisco estar se acabando, secando... isso tem maltratado muito a gente que véve (sic) da pesca”.

Muitas espécies de peixes estão sumindo do rio: “pilombeta, piau, xirá... hoje não tem mais os peixes de água doce que ficavam nos riachos em Brejo Grande, em Brejão... Camarão de água doce também sumiu”, explica Chico. “Só tem peixe de cativeiro: tilápia, tambaqui. E camarão de viveiro”, complementa seu Manuel.

O cultivo de arroz e de coco na região também foi afetado pela salinização da água e diminuição da vazão do São Francisco, que matou os coqueiros e afetou as áreas inundáveis onde se cultivava o arroz.

A dinâmica das águas

Tanto Seu Manuel como Chico atribuem o avanço do mar à construção das barragens rio acima: “o Rio São Francisco tá sofrendo devido às barragens. Isso atrapalhou as águas a descerem, não vem mais aquela água de Minas, da Serra da Canastra”, explica Chico. “Não temos mais água de rio devido a essas barragens aí, né? E a gente continua sofrendo aqui embaixo. Sofrendo bastante”, relata seu Manuel.

De fato, a construção de barragens provoca alterações significativas na dinâmica natural de rios, de estuários, da zona costeira e, consequentemente, o recuo das margens.

O coordenador de geografia do IBGE, Claudio Stenner, explica que, ao longo de milhões de anos, o rio carrega sedimentos do continente e os deposita junto à foz, avançando em relação ao mar. Porém, com a construção de barragens, boa parte dos sedimentos não chega mais a esse ponto. Dessa forma, reduz-se a capacidade do rio de depositar sedimentos, o que acarreta a erosão da costa. O controle de cheias e vazões das hidrelétricas também interfere no depósito de sedimentos, pois muda a sazonalidade natural dos rios.

Disputa pela água

Stenner também explica que o processo estrutural de ocupação da bacia do São Francisco, tanto urbana quanto agropecuária, vem causando degradação e perda de vegetação natural em muitas áreas: “isso leva a uma redução na capacidade de recarga de todo o sistema: sem a vegetação, quando chove, a água escoa e não tem armazenamento, o que também causa um maior assoreamento do rio”.

Outro fator é a disputa pelo uso da água: o volume de água do rio é limitado, e a água do Velho Chico é fundamental para o abastecimento, para a irrigação, para a produção de energia.

“Esse gerenciamento nem sempre é isento de conflito porque, se eu aumento a produção de energia elétrica, reduzo a água para irrigação. Se eu seguro a água na barragem, reduzo a vazão na foz. Se reduzir a vazão da foz, o mar vai entrar mais”, exemplifica Stenner.

Acrescente-se a tudo isso a questão do aquecimento global, que, apesar de não ser consenso, pode estar relacionado ao fenômeno, intensificando os ciclos naturais de seca e reduzindo o volume de água do Rio São Francisco.

Com todos esses fatores acontecendo rio acima, o Velho Chico chega sem força à sua foz e vai perdendo espaço para as águas salgadas do Atlântico.

Leia mais sobre o rio São Francisco na revista Retratos nº 13 e nos links abaixo:

Profissões ribeirinhas ainda resistem no São Francisco

Rio São Francisco faz ligação estratégica entre regiões do país e pede passagem

Vídeo traz reportagem sobre o Velho Chico, o rio que resiste