Dia do Cartógrafo destaca evolução tecnológica e importância estratégica da área no IBGE
06/05/2026 16h31 | Atualizado em 07/05/2026 11h36
Em 1500, quando a carta de Pero Vaz de Caminha foi enviada a Portugal, relatando o Brasil, um documento igualmente relevante foi junto. Potência da navegação, os portugueses sabiam que uma boa descrição de uma localidade dependia de coordenadas bem definidas. Por isso, o astrônomo Mestre João, que integrava a comitiva de Pedro Álvares Cabral, determinou a latitude da Baía de Cabrália, hoje Porto Seguro (BA). Foi o primeiro trabalho cartográfico do Brasil, o que motivou a celebração do Dia do Cartógrafo nesta quarta-feira, 6 de maio.
Oficialmente engenheiro cartógrafo, este profissional é especialista na coleta de dados geoespaciais, na produção de mapas e na representação dos fenômenos que ocorrem na superfície da Terra em conformidade com a realidade. No IBGE, que tem a missão de retratar o país, o trabalho tem dupla função: sustentar a produção estatística, que precisa de base territorial e garantir que a compreensão dos dados pela sociedade seja melhor compreendida, no espaço em que vivemos.
A Agência IBGE Notícias conversou com dois cartógrafos de gerações e trajetórias distintas no instituto: Eduardo Michalzechen Liberal Xavier, engenheiro cartógrafo e especialista em geodésia, e Vânia de Oliveira Nagem, engenheira cartógrafa com 40 anos de formação e ampla experiência em bases cartográficas, toponímia e integração com temas ambientais.
A cartografia talvez seja uma das áreas que mais se transformaram nas últimas décadas. O salto tecnológico — satélites, imagens de alta resolução, sistemas de informação geográfica, Global Navigation Satellite System (GNSS) — mudou profundamente a forma de mapear o território.
Para Eduardo, as mudanças deixaram a profissão mais fortalecida, ainda que a análise humana se mantenha fundamental. “A tecnologia só veio contribuir. Diminuiu o tempo de execução e aumentou a precisão. Mas não substituiu o material humano”, comenta.
Ele lembra que, antes do uso de GNSS, um levantamento que hoje leva meia hora exigia semanas de trabalho e equipes numerosas. “Era uma manobra de guerra”, brinca.
Com mais tempo de experiência dentro e fora do IBGE, Vânia acompanhou a chegada das imagens de satélite, dos sistemas de informação geográfica e da cartografia colaborativa. Ela viu a profissão se reinventar sem perder sua essência.
“A gente começou convertendo cartas em papel para o meio digital, validando inconsistências, ajustando rios, estradas, limites. Era um trabalho minucioso, que exigia olhar técnico e interdisciplinar.”, conta.
Eduardo atua na geodésia, área responsável por definir a forma da Terra, seu campo gravitacional e os referenciais que permitem que todas as medições “falem a mesma língua”. É um trabalho que poucos conhecem, mas que todos usam diariamente. “A vida moderna só funciona porque a geodésia existe”, lembra.
Como exemplos de atividades que dependem diuturnamente da geodésia, estão navegação por aplicativos, agricultura de precisão, funcionamento das plataformas de petróleo, instalação de hidrelétricas, aviação, telecomunicações e o lançamento de foguetes. É tanto serviço que hoje parece automático, que Eduardo alerta para a necessidade de manutenção de um sistema geodésico fortalecido. “Se isso se perde, pode haver colapso, porque a dependência tecnológica é enorme”, sustenta.
Vânia dedicou parte importante da carreira à toponímia, área que estuda e padroniza os nomes geográficos. Para ela, o nome de um rio, de uma serra ou de uma localidade é mais do que um rótulo. “O nome tem identidade. O indivíduo se identifica com o território”, afirma.
Ela explica que, ao digitalizar as cartas topográficas produzidas sobre uma localidade, muitas vezes encontrava o mesmo rio com nomes diferentes em folhas distintas. Resolver essas inconsistências exigia pesquisa, consulta a fontes locais e, muitas vezes, trabalho de campo. “A reambulação é isso: ir a campo para recolher o nome que a população entende como o nome do lugar”, explica.
No IBGE desde 2010, Eduardo trabalhou por mais de uma década com gravimetria, participou de projetos internacionais, atuou em processos judiciais envolvendo royalties do petróleo e viveu experiências de campo dignas de documentário: noites em barcos na Amazônia, lama até o joelho no Xingu, viagens até o Oiapoque.
Hoje, o analista assessor técnico na Diretoria de Geociências define com clareza o sentimento de muitos profissionais da área. “Para quem é da cartografia ou da estatística, estar no IBGE é como estar na Seleção Brasileira.”
Vânia entrou no IBGE como contratada em 1997, e concursada desde 2002, participou do Projeto Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia), atuou na conversão das cartas topográficas, trabalhou com temas ambientais, coordenou nomes geográficos, fez mestrado em educação ambiental e passou por áreas de planejamento e gestão. Atualmente está como Gerente de Disseminação de Informações (GDI) na diretoria.
Sua trajetória acompanha a própria evolução da cartografia no Brasil. Ela entende que a integração com a sociedade, a cartografia colaborativa e a educação ambiental, por exemplo, são sinais de como a profissão está inserida no cotidiano. “Tudo que acontece, acontece em algum lugar, em algum tempo”, comenta, quando questionada sobre a relevância de um trabalho cartográfico valorizado em um instituto como o IBGE.
Com mudanças tecnológicas a todo o vapor e uma nova corrida espacial, Eduardo, imagina fronteiras espaciais abertas para o engenheiro cartográfo. “Se forem ocupar Marte, vão colocar satélites, GPS de Marte, satélites de imageamento, talvez até satélite gravimétrico”, projeta.
A cartografia é, por natureza, uma ciência que trabalha nos bastidores. Mas sem ela, o país literalmente não funciona. No IBGE, profissionais como Eduardo e Vânia garantem que o Brasil esteja corretamente representado — no mapa, nos dados e na vida real.
Neste dia do cartógrafo, portanto, tentamos reconhecer o quanto eles são essenciais para que tudo funcione, mesmo que, como Eduardo comenta, é até bom sinal que poucos se lembrem do trabalho do cartógrafo: “Se a cartografia funciona, ninguém vê. Se alguém vê, é porque deu problema”, brinca.
