90 anos
Câmara dos Deputados faz homenagem ao IBGE
02/07/2026 17h31 | Atualizado em 02/07/2026 17h31
A Câmara dos Deputados realizou, nesta quinta-feira (2), uma Sessão Solene em homenagem aos 90 anos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), celebrando a trajetória da instituição e sua contribuição para a produção de informações que orientam políticas públicas, o planejamento territorial e o desenvolvimento nacional.
O evento ocorreu no Plenário Ulysses Guimarães, por convite do presidente da Casa, deputado Hugo Motta, e foi requerido pelos deputados federais Luizianne Lins (REDE), Pedro Uczai (PT) e Laura Carneiro (PSD). A sessão contou com a participação de parlamentares, servidores do Instituto, representantes de entidades e autoridades.
Durante a cerimônia, presidida pela deputada federal Erika Kokay (PT-DF), a parlamentar destacou a importância do Instituto para a formulação de políticas públicas e para a construção de diagnósticos sobre a realidade brasileira. Segundo ela, a história do IBGE reflete a grandeza de um país que busca compreender seus desafios e criar as condições necessárias para promover o desenvolvimento e a redução das desigualdades.
Representando os servidores da instituição, Márcia Carneiro enfatizou o compromisso histórico do corpo técnico do Instituto com a qualidade das informações produzidas. “Entregamos bilhões de dados todos os dias com rigor técnico e científico. Continuaremos trabalhando para contribuir com o desenvolvimento do Brasil”, afirmou.
A presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon), Tânia Cristina Teixeira, ressaltou o valor da produção estatística para a sociedade brasileira. “A ciência estatística é a verdade em defesa da cidadania. O IBGE segue cumprindo sua missão nobre, ajudando o Brasil a conhecer a si mesmo”, declarou.
Já o superintendente do IBGE no Distrito Federal, Gabriel Antonaccio, destacou que a atuação da instituição vai além da produção de estatísticas. “Nossa força também está nas geociências e no meio ambiente. Tivemos, nesta semana, uma conquista histórica com a integração da Reserva Ecológica do IBGE ao sistema de estações ecológicas do país”, lembrou.
O diretor-geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), Alfredo Pessoa, defendeu o fortalecimento das parcerias entre o IBGE e os estados. Para ele, experiências bem-sucedidas, como as desenvolvidas no Ceará, podem ser ampliadas para outras unidades da Federação, fortalecendo a produção estatística em todo o território nacional.
A gerente de Apoio à Implementação do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados (SINGED), Dalea Antunes, reafirmou o compromisso da instituição com a inovação e a inclusão. “Nosso compromisso é construir uma estatística cada vez mais inclusiva, inovadora e comprometida com o interesse público”, disse.
Em seu pronunciamento, o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, afirmou que a homenagem representa o reconhecimento não apenas da instituição, mas também da importância do conhecimento para a construção da democracia. Segundo ele, o Instituto chega aos 90 anos diante de novos desafios impostos pela revolução digital e pela inteligência artificial, defendendo a necessidade de o país fortalecer sua soberania estatística, geocientífica e digital. “Nenhuma democracia prospera sem informação confiável. Nenhum projeto nacional sobrevive quando um país deixa de conhecer a si mesmo”, afirmou.
Pochmann destacou ainda que o IBGE foi criado para ajudar o Estado brasileiro a compreender as transformações do país e que agora é chamado a desempenhar um papel central na construção de uma inteligência pública voltada para a era digital. Para ele, dados, geociências e estatísticas devem continuar a servir ao planejamento, à formulação de políticas públicas e à redução das desigualdades sociais. “O conhecimento produzido sobre o Brasil deve continuar pertencendo ao Brasil. Esta é a verdadeira soberania do século XXI”, concluiu.
Leia a íntegra do discurso do presidente do IBGE, Marcio Pochmann, em homenagem aos 90 anos da instituição no Congresso Nacional.
Homenagem da Câmara dos Deputados
Manifesto da Soberania Estatística, Geocientífica e Digital do Brasil
Senhora Presidente desta sessão solene Câmara dos Deputados; a ilustre deputada Erika Kokay; o diretor-geral do Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE), Alfredo Pessoa; a economista Tania Cristina Teixeira, presidente do Conselho Federal de Economia (Cofecon); a colega Dalea Antunes, gerente de Apoio à Implementação do Sistema Nacional de Informações Geocientíficas, Estatísticas e Dados (SINGED) e coordenadora da Comissão de Gênero e Sexualidade do IBGE, o Superintendente do IBGE no Distrito Federal, Gabriel Antonaccio e a Marcia Carneiro, responsável pela Casa Brasil IBGE.
Também saúdo os deputados que encaminharam o requerimento que sugeriu a homenagem, os deputados federais Luizianne Lins (REDE), Pedro Uczai (PT) e Laura Carneiro (PSD).
Confesso que recebo esta homenagem com profunda gratidão, não em nome de uma pessoa, mas em nome de milhares de servidores, pesquisadores, geógrafos, estatísticos, técnicos, recenseadores e trabalhadores que, ao longo de gerações, fizeram do IBGE uma das instituições públicas mais respeitadas do Brasil.
Agradeço à Câmara dos Deputados porque esta homenagem ultrapassa o reconhecimento a uma instituição.
Ela representa o reconhecimento de uma ideia.
A ideia de que nenhuma República se constrói sem conhecimento.
Nenhuma democracia prospera sem informação confiável.
Nenhum projeto nacional sobrevive quando um país deixa de conhecer a si mesmo.
Celebrar os 90 anos do IBGE é celebrar uma das maiores conquistas silenciosas do Estado brasileiro.
Poucas instituições influenciaram tanto a construção do Brasil contemporâneo.
O IBGE é um órgão do povo brasileiro. Da República. Do Estado brasileiro! Sempre colaborando com governos, gestores públicos, de diferentes orientações políticas.
Serviu à ciência, às universidades, aos municípios, aos estados, às empresas, aos trabalhadores e à sociedade brasileira.
Mudaram governos.
Mudaram Constituições.
Mudaram prioridades econômicas.
Mudou o mundo.
Mas permaneceu uma convicção: os fatos pertencem ao povo brasileiro.
Essa talvez seja a maior riqueza construída pelo IBGE.
Sua credibilidade.
Sua independência técnica.
Seu compromisso permanente com a verdade estatística e geocientífica.
Mas, permitam-me afirmar, nesta sessão solene, que comemorar noventa anos não significa apenas homenagear o passado.
Significa assumir responsabilidade pelo futuro.
Porque a história nunca pergunta às instituições o que elas fizeram.
A história pergunta se elas continuam capazes de responder aos desafios do seu tempo.
Foi exatamente isso que aconteceu em 1936.
Naquele momento, o Brasil vivia uma transformação profunda.
A velha estrutura agrária já não respondia às necessidades de uma sociedade que se urbanizava, se industrializava e se integrava territorialmente.
Era necessário construir um Estado capaz de compreender um país em rápida transformação.
Foi essa visão que deu origem ao IBGE.
Não nasceu apenas um instituto.
Nasceu a inteligência permanente do Estado brasileiro, a partir do governo Vargas.
Conhecer a nação é conhecer o seu povo e seu território!
A criação do IBGE significou reconhecer que produzir estatísticas, mapas e conhecimento científico não era uma atividade acessória.
Era uma função estratégica da República.
Porque nenhum país planeja aquilo que desconhece.
Nenhum país transforma aquilo que não mede.
Nenhum país governa bem aquilo que não compreende.
Durante nove décadas, essa missão foi cumprida com excelência.
Hoje, porém, uma nova transformação histórica bate à nossa porta.
Talvez ainda mais profunda do que aquela enfrentada pelos fundadores do IBGE.
Estamos assistindo ao nascimento de uma nova economia.
De uma nova sociedade.
E de uma nova geopolítica.
Uma geopolítica em que os recursos estratégicos já não são apenas petróleo, aço, energia ou território.
São também os dados.
A informação.
A inteligência artificial.
A capacidade de transformar conhecimento em desenvolvimento.
É justamente aqui que começa a nova missão histórica do IBGE.
Porque, se o século XX exigiu a construção da soberania estatística e geocientífica, o século XXI exige que o Brasil construa sua soberania digital.
E essa talvez seja a maior tarefa nacional da nossa geração.
Senhoras e Senhores,
Cada geração enfrenta um desafio que nenhuma outra enfrentou antes.
A geração de 1872 teve a missão de contar o Brasil.
A geração de 1936 teve a missão de compreender o Brasil.
A nossa geração tem uma responsabilidade ainda maior.
Garantir que o Brasil continue sendo o autor do conhecimento sobre si mesmo.
Estamos vivendo uma mudança histórica comparável à Revolução Industrial.
Durante quase dois séculos, a riqueza das nações foi medida pela capacidade de transformar matéria em bens industriais.
Hoje, a riqueza nasce da capacidade de transformar informação em inteligência.
Mudou a economia.
Mudou a ciência.
Mudou a política.
Mudou o trabalho.
Mudou a forma de exercer poder.
E, por isso, mudou também o significado da soberania.
Durante muito tempo, acreditamos que soberania significava controlar fronteiras, defender o território, preservar recursos naturais ou desenvolver a indústria.
Tudo isso continua indispensável.
Mas já não é suficiente.
No século XXI, soberania significa também produzir conhecimento sobre a própria sociedade.
Significa dominar tecnologias estratégicas.
Significa desenvolver inteligência artificial comprometida com o interesse público.
Significa assegurar que os dados produzidos por milhões de brasileiros fortaleçam o desenvolvimento nacional e a democracia.
Os dados tornaram-se a matéria-prima da economia digital.
Mas dados, isoladamente, nada significam.
Seu verdadeiro valor está na capacidade de transformá-los em inteligência para orientar políticas públicas, ampliar a produtividade, enfrentar as mudanças climáticas, fortalecer o SUS, melhorar a educação, compreender as transformações do trabalho e reduzir desigualdades.
Por isso, não basta possuir dados.
É preciso possuir inteligência pública.
E é exatamente aqui que o IBGE reencontra sua vocação histórica.
Durante noventa anos, construímos a soberania estatística e geocientífica do Brasil.
Produzimos informações confiáveis sobre o território, a população, a economia, o meio ambiente e a realidade social.
Agora somos chamados a dar um novo passo.
Transformar essa extraordinária tradição em uma plataforma nacional de inteligência pública para a Era Digital.
Isso significa integrar estatísticas oficiais, geociências, registros administrativos, ciência de dados e inteligência artificial em benefício da sociedade, com a criação do Sistema Nacional de Geociências, Estatísticas e Dados - SINGED.
Significa ampliar nossa capacidade de antecipar tendências, compreender transformações e apoiar decisões estratégicas do Estado brasileiro.
Significa colocar a inovação a serviço da República.
Não estamos falando de substituir pesquisas por algoritmos.
Nem de substituir estatísticos por máquinas.
Estamos falando de fortalecer a inteligência humana com novas ferramentas tecnológicas, preservando aquilo que constitui a essência do IBGE com a independência técnica, rigor científico, transparência e compromisso com o interesse público.
Porque a inteligência artificial, sem estatísticas confiáveis e sem geociências de qualidade, produz velocidade, mas não produz verdade.
E a velocidade sem verdade pode ampliar erros, desigualdades e injustiças.
É por isso que o Brasil precisa afirmar um princípio fundamental.
Os dados produzidos pela sociedade brasileira constituem um patrimônio estratégico da Nação.
Seu uso deve estar orientado pela Constituição, pela democracia, pela ética, pela ciência e pelo interesse público.
Essa é a nova fronteira da soberania brasileira.
Não apenas a soberania sobre o território.
Não apenas a soberania econômica.
Mas também a soberania sobre a inteligência produzida a partir da realidade nacional.
Assim como o século XX construiu empresas estratégicas para garantir energia, infraestrutura, financiamento e pesquisa, o século XXI exige instituições capazes de garantir inteligência pública.
E essa missão não pertence exclusivamente ao IBGE.
Pertence ao Estado brasileiro.
Pertence às universidades.
Pertence às instituições científicas.
Pertence aos governos estaduais e municipais.
Pertence ao Congresso Nacional.
Pertence à sociedade.
Mas o IBGE, pela sua história, pela sua credibilidade e pela confiança que conquistou ao longo de noventa anos, está chamado a exercer um papel central nessa nova etapa da construção nacional.
Porque conhecer o Brasil continua sendo a condição indispensável para transformá-lo.
E transformar o Brasil continua sendo a razão maior da existência do IBGE.
Senhora Presidente,
Senhoras e Senhores Parlamentares,
Ao celebrar o aniversário de 90 anos do IBGE, esta Casa presta homenagem a uma das mais importantes construções da República brasileira.
Mas as instituições não vivem de homenagens.
Vivem de missões.
E toda missão histórica precisa ser renovada.
A geração de 1936 compreendeu que o Brasil somente construiria seu futuro se fosse capaz de conhecer sua realidade.
Graças àquela visão, o país construiu a mais respeitada instituição estatística da América Latina e uma das mais respeitadas do mundo.
Hoje cabe à nossa geração uma responsabilidade semelhante.
Preparar o Estado brasileiro para uma nova época.
Não uma época da estatística contra a inteligência artificial.
Nem da ciência contra a tecnologia.
Muito menos do público contra o privado.
Mas uma época em que a inteligência pública seja reconhecida como patrimônio estratégico da Nação.
Porque um país que deixa de conhecer profundamente a si mesmo começa, lentamente, a perder sua capacidade de decidir.
Primeiro perde os dados.
Depois perde a capacidade de interpretá-los.
Mais adiante perde a capacidade de planejar.
E, por fim, perde parte de sua soberania.
É exatamente para impedir esse risco que devemos iniciar uma nova etapa da história do IBGE.
Uma etapa em que a excelência estatística caminhe ao lado da ciência de dados com planejamento de forma democrática, transparente e participativa, o que levou ao IBGE construir o seu Plano Geral de Informações Estatísticas e Geocientíficas, no período de 2026 a 2032, uma obrigação legal que desde 1974 estava abandonada.
A recuperação do planejamento desvia dos infortúnios da mera gestão das emergências, permitindo que o novo seja introduzido sem romper com a cultura institucional, porém comprometida com a garantia soberana de um órgão de Estado com a informação pública produzida com independência, transparência, rigor científico e compromisso democrático.
Não para substituir a história do IBGE.
Mas para honrá-la.
Porque honrar uma instituição não significa conservá-la exatamente como ela é.
Significa prepará-la para responder aos desafios do seu tempo.
Por isso, nesta solenidade dos noventa anos, proponho que assumamos um compromisso nacional.
Que o Brasil faça da soberania estatística, da soberania geocientífica e da soberania digital um novo pilar do seu projeto de desenvolvimento.
Que os dados produzidos pela sociedade brasileira sejam tratados como patrimônio estratégico do Estado e da sociedade.
Que a inteligência artificial seja utilizada para ampliar a capacidade de planejamento, reduzir desigualdades, proteger a Amazônia, fortalecer o SUS, melhorar a educação, apoiar a inovação e aumentar a produtividade nacional.
Que o conhecimento continue sendo um bem público.
Que a ciência continue sendo fundamento das políticas públicas cada vez mais preditivas.
Que a informação continue pertencendo ao povo brasileiro.
Este não é um compromisso apenas com o IBGE.
É um compromisso com as futuras gerações.
Porque elas viverão em um mundo em que as disputas entre as nações ocorrerão cada vez mais pela capacidade de produzir conhecimento, desenvolver inteligência artificial, proteger dados estratégicos e transformar informação em desenvolvimento.
É esse Brasil que precisamos continuar a construir hoje.
Permitam-me concluir.
Em 1872, o Brasil começou a contar sua população.
Em 1936, passou a compreender sua transformação.
Em 2026, diante da revolução digital e da inteligência artificial, somos chamados a dar um novo passo.
Transformar conhecimento em soberania.
Transformar dados em inteligência pública.
Transformar inteligência pública em desenvolvimento nacional.
Que ninguém ouse ter dúvidas.
O IBGE continuará contando os brasileiros.
Continuará revelando quem somos.
Continuará produzindo as estatísticas e as geociências que sustentam a democracia e o planejamento.
Mas será chamado também a contribuir para algo ainda maior.
Garantir que, na era da inteligência artificial, o conhecimento produzido sobre o Brasil continue pertencendo ao Brasil.
Porque esta é a verdadeira soberania do século XXI.
A soberania de um povo que conhece profundamente sua realidade, decide seu próprio destino e constrói, com ciência, democracia e desenvolvimento, o futuro da Nação.
Viva o IBGE.
Viva a ciência pública.
Viva a República.
E viva o Brasil.
Pois, há noventa anos, o nosso país compreendeu que não existe soberania sem estatísticas e geociências.
Hoje compreendemos que também não existirá soberania sem inteligência pública e sem domínio sobre os dados estratégicos da Nação.
Que os próximos noventa anos sejam lembrados como o tempo em que o Brasil decidiu que seu futuro digital seria construído com ciência, democracia e soberania.
Esta é a missão do IBGE.
Esta é a missão do Estado brasileiro.
Esta é a missão da nossa geração."
Marcio Pochmann
02.07.2026
