Revista Retratos

Carnaval inclusivo levanta importância do tema população com deficiência

Editoria: Revista Retratos | Camille Perissé

01/03/2019 10h30 | Atualizado em 01/03/2019 10h41

Bloco Eficiente faz a festa de crianças com deficiência desde 2014, no Rio de Janeiro - Foto: Licia Rubinstein/Agência IBGE Notícias

O carnaval consegue reunir pessoas dos mais variados gostos e perfis. Considerando que essa festa popular é para todos, alguns blocos carnavalescos aderem à inclusão social como seu principal estandarte. É o caso do bloco Eficiente, que desde 2014 faz a folia em diversos pontos da cidade do Rio de Janeiro reunindo principalmente crianças com deficiência, além de seus familiares e amigos.

“Dessa forma as pessoas se sensibilizam com a causa, com a inclusão, que é tão difícil”, explica Bruna Saldanha, jornalista que idealizou o bloco. Saldanha é mãe de Izabel, de 10 anos, que tem paralisia cerebral. A menina motivou a mãe foliã a participar do carnaval de uma nova maneira. “Eu nem conhecia outros blocos com essa pegada, porque antigamente as pessoas [com deficiência] ficavam isoladas, eram dois universos”, conta a jornalista.

No Brasil, 6,7% da população tem alguma deficiência

O último Censo Demográfico, realizado em 2010, mostrou que o país tinha 45,6 milhões de pessoas com deficiência, o que correspondia a 23,9% da população. Nesse total, foram considerados os indivíduos que tinham pelo menos alguma dificuldade de enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus e aqueles com deficiência mental permanente. Para as três primeiras deficiências também foi perguntado o grau de impedimento: “não consegue de modo algum”, “grande dificuldade” ou “alguma dificuldade”.

Porém, em 2018, o IBGE divulgou uma nota técnica com uma releitura dessas estatísticas. O documento segue recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU), elaborada pelo Grupo de Washington para Estatísticas sobre Pessoas com Deficiência, para garantir a comparação com dados censitários de outros países. Com isso, passaram a ser identificadas como pessoa com deficiência apenas os indivíduos que tinham “muita dificuldade” ou “não conseguiam de modo algum” enxergar, ouvir, caminhar ou subir degraus. Ao aplicar a nova linha de corte, os dados do Censo 2010 mostraram que o Brasil tinha 12,7 milhões de pessoas com deficiência, equivalente a 6,7% da população - incluindo as pessoas com deficiência mental.

A pesquisadora do IBGE Juliana Queiroz prevê que, no Censo 2020, a escala de gradação do nível de dificuldade também deverá ser aplicada para a deficiência mental, em vez das opções de resposta “sim” ou “não”. Ela explica que a investigação sobre os graus de impedimento acompanha as mudanças no conceito de deficiência biopsicossocial, que hoje considera a interação da pessoa com o meio, e não apenas a estrutura e funcionalidade corporal.

“Dois corpos que tenham os mesmos impedimentos podem ter níveis de deficiência muito diferentes. Por exemplo, uma pessoa que tenha algum nível de cegueira: se ela vive em um país que tenha facilitadores, como sinais de trânsito sonoros para que ela possa atravessar a rua, ela tem uma deficiência muito menor do que uma pessoa que não consegue enxergar e mora em uma favela, em que o meio só lhe oferece impedimentos”, explica a pesquisadora.

A revista Retratos, na edição de março, vai continuar a discutir o tema de pessoas com deficiência. A reportagem vai contar mais detalhes sobre a abordagem do assunto ao longo dos censos demográficos brasileiros – tudo ainda em clima de carnaval inclusivo.