20/02/2018 | Última Atualização: 10/04/2018 08:50:34

[Retratos] Favelas resistem e propõem desafios para urbanização

Editoria: Revista Retratos

Falar de favelas é um tema complexo que acende muitas discussões sobre políticas de urbanização, infraestrutura e identidade. Entre 1991 e 2010, a população residente nesses locais – chamado pelo IBGE de aglomerados subnormais – aumentou em mais de 60%, passando de pouco menos de sete milhões para 11,4 milhões de pessoas, segundo o Censo Demográfico.

Tais números só reforçam a importância de se conhecer a realidade de quem vive nesses locais. As pesquisas do IBGE sobre o tema, inclusive, têm relação direta com a geração de indicadores para o Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) 11.1, que é de “até 2030, garantir o acesso de todos a habitação segura, adequada e a preço acessível, e aos serviços básicos e urbanizar as favelas”.

Os vários nomes da favela

Na mídia, o nome mais comum é favela. Mas também pode ser grotão, invasão, alagado, vila, bairro – dependendo do lugar e de quem fala. No Rio de Janeiro, por exemplo, a palavra comunidade tem sido usada para falar desses espaços de forma a incluir seu aspecto de convívio e ressignificar a associação imediata entre favela e violência.

Mas isso não é consenso: há quem defenda o termo favela como espaço de afirmação de uma identidade própria, de resistência e denúncia de suas condições, e que acredita que falar de comunidades representa apagamento e silenciamento dessas questões.

Para o IBGE, os “aglomerados subnormais” representam um conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de propriedade alheia (pública ou particular) dispostas, em geral, de forma desordenada e densa, e apresentando carência em serviços básicos.

Proximidade com áreas nobres

Os últimos anos vêm demonstrando que os aglomerados representam não apenas um local de moradia, mas carregam o potencial de transformação da realidade dos moradores. Projetos culturais e educativos têm ganhado cada vez mais espaço, levando lazer e inclusão como em Pirambu, um dos dez maiores aglomerados do Brasil, localizado em Fortaleza (CE).

O professor de teatro Geraldo Damasceno coordena um projeto cultural na comunidade, onde também mora: “Por meio da nossa ONG, produzimos 18 curtas-metragens, um média e dois longas com atores formados na comunidade”, diz.

A comunidade Tavares Bastos, na Zona Sul do Rio de Janeiro (RJ), tem vista deslumbrante da Baía de Guanabara e possui fácil acesso aos principais serviços urbanos, sem se pagar muito por isso. A moradora Magali Gonçalves explica: Aqui, você desce e tem colégio, tem mercado. Quem trabalha ou estuda, não precisa ficar horas no transporte.

O mesmo acontece na Ilhinha, em São Luís (MA), localizada entre bairros de alto poder aquisitivo. Marcionílio Silva, nascido e criado lá, se diz orgulhoso de morar na comunidade. “Aqui tem tudo, salão, lanchonete, farmácia, loja de roupas, não é preciso se deslocar até o centro da cidade”.

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Tavares Bastos, no Rio de Janeiro (RJ) - foto de Camille Perissé
Ilinha, em São Luís (MA) - foto de Leandro Santos
Kívia Patrine e sua família, moradores do Parque Mariana, em Cuiabá (MT) - foto de Alexandre Guimarães
Ana Maria da Silva Costa, moradora do bairro Sol Nascente, em Várzea Grande (MT) - foto de Alexandre Guimarães
Raimundo Nascimento, morador do Morro Santa Teresa, em Porto Alegre (RS) - foto de José Zasso

Violência, falta de infraestrutura e resistência

Apesar de uma primeira análise sugerir que a exposição à violência urbana seja algo inerente a estes espaços vale lembrar que nem sempre foi assim. Existem famílias que moravam na mesma área há gerações e percebem as mudanças ao longo do tempo.

“Nossa casa foi dos meus bisavós” conta Marli Silva, moradora da vila Senhor dos Passos, em Belo Horizonte (MG). Aqui é bem localizado ao lado da Lagoinha (bairro nobre da capital mineira), mas falta segurança. Estamos perdendo muitos jovens de 15, 20 anos, eles morrem cedo por causa da criminalidade”, relata.

Um outro problema bastante comum: a falta da legalização dos endereços. No bairro Sol Nascente, em Várzea Grande (MT), a moradora Ana Maria da Silva Costa não consegue receber suas correspondências. “Não temos CEP e por isso não temos o direito de mandar uma carta ou de receber algo pelo correio. Moro aqui já tem 27 anos e isso nunca mudou”, desabafa.

Características de muitos aglomerados, a falta de asfaltamento nas ruas acarreta em problemas de saúde de moradores do Parque Mariana, em Cuiabá (MT), segundo conta a moradora Kívia Patrine. “Aqui tem muita criança alérgica, com bronquite e asma por causa da poeira. ”

O mesmo problema dificulta a locomoção dos moradores no Loteamento Jardim Brasil V, em Olinda (PE). O caminhoneiro José Juvenal, morador do local, relata que já ajudou a socorrer um morador porque a ambulância não conseguiu passar devido aos buracos nas ruas. “Eu tive que pegar meu carro e levar a pessoa até a pista de entrada”, conta.

Mesmo com as dificuldades, porém, muitos moradores não manifestam vontade se mudar de onde vivem. O piauiense Raimundo Nascimento mora no Morro Santa Teresa, às margens do rio Guaíba, em Porto Alegre (RS), e conta que a comunidade se uniu para resistir às tentativas de remoção.

“Tenho muito orgulho dos meus vizinhos, do Rio Grande do Sul, nós nos reunimos e impedimos que tirassem a vila da gente”, afirma.

Acesse aqui para conhecer mais sobre o conceito de aglomerado subnormal do IBGE.


Repórter: Eduardo Peret, João Neto e Marília Loschi, colaboração de Alana Lima, Alexandre Guimarães, Camille Perissé, Helena Tallmann, José Zasso, Larissa Grizoli, Leandro Santos, Paulo Yan Carlôto