Censo da População em Situação de Rua
IBGE lança, em São Paulo, o 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua
30/04/2026 16h40 | Atualizado em 04/05/2026 08h18
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou, nesta quinta-feira (30), em São Paulo (SP), no Sesc Santo Amaro, o terceiro de três lançamentos regionais do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua. A iniciativa representa um marco histórico ao estabelecer, pela primeira vez, um levantamento estatístico nacional dedicado exclusivamente a esse segmento da população.
Desenvolvido pelo IBGE em parceria com instituições públicas, organizações da sociedade civil e movimentos sociais, o Censo destina-se à contagem e à caracterização demográfica e socioeconômica da população em situação de rua do País, constituindo-se como instrumento essencial para o fortalecimento das políticas públicas voltadas a esse grupo populacional, ao fornecer uma base estatística robusta, padronizada e comparável em âmbito nacional.
A pesquisa permitirá identificar, com rigor metodológico, a distribuição territorial, o perfil sociodemográfico e as condições de vida da população em situação de rua, suprindo lacunas históricas decorrentes da fragmentação e heterogeneidade das fontes existentes.
A abertura do evento contou com a fala de Flávia Carvalho, Gerente de Programas Sociais do Sesc São Paulo, que destacou que sediar o encontro reforça o compromisso da instituição com a articulação de ações voltadas à inclusão social. “Este é um espaço de escuta e compartilhamento de saberes. A partir do lançamento do Programa Cidadania PopRua e do Primeiro Censo da População em Situação de Rua, a expectativa é fortalecer parcerias e ampliar iniciativas que contribuam para a convivência comunitária e para a transformação social”, afirmou.
Na primeira mesa, dedicada ao tema “O papel dos direitos humanos no território”, foi apresentado o programa Cidadania PopRua, coordenado pelo Governo Federal. A iniciativa prevê a implementação de unidades de atendimento com equipes multidisciplinares, que integram serviços especializados em direitos humanos a uma estrutura de acolhimento, incluindo oferta de higiene, hidratação e guarda de pertences.
Durante o debate, a diretora de Políticas para a População em Situação de Rua do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), Malu Gama, destacou a abrangência do programa. “Estamos inaugurando 47 unidades do Cidadania PopRua em todo o país, sendo São Paulo o município com maior número de equipamentos. São sete por aqui. Trata-se de uma resposta do Estado ao aumento da violência contra essa população, com investimento de R$ 70 milhões, partindo do entendimento de que os direitos humanos são base para o acesso a outras políticas públicas”, afirmou.
A coordenadora de projetos da Associação Rede Rua, Andreza do Carmo, ressaltou a importância da produção de dados para o desenvolvimento de políticas públicas. “Os movimentos sociais reivindicam há anos a realização de uma contagem nacional dessa população. Ter informações detalhadas e qualificadas é fundamental para orientar ações que não se baseiem apenas em estimativas ou percepções locais. Há grande expectativa em relação ao trabalho do IBGE, que pode fortalecer esse processo”, destacou.
Após a primeira mesa, o evento contou com apresentação cultural da banda Chá do Padre, com repertório de música popular brasileira.
Anderson Lopes Miranda, coordenador-geral do Comitê Intersetorial de Acompanhamento e Monitoramento da Política Nacional para População em Situação de Rua (CIAMP-Rua), destacou o processo de construção coletiva da iniciativa. “Foram anos de mobilização e debate até chegarmos à realização de um Censo nacional da população em situação de rua. Participamos de workshops metodológicos para contribuir com a pesquisa e apresentar nossa perspectiva sobre como esse levantamento deve ser conduzido".
Márcio Pochmann, presidente do IBGE, destacou o caráter histórico da iniciativa. “A realização do primeiro Censo da População em Situação de Rua representa, para o IBGE, uma forma de saldar uma dívida do sistema estatístico com essa parcela da população. O Brasil já realizou 12 censos demográficos baseados em referências internacionais que utilizam o domicílio como ponto de partida, o que, na prática, exclui quem não possui endereço fixo. Agora, avançamos para incluir essa população”, afirmou.
Segundo ele, o levantamento é resultado de um esforço construído ao longo do tempo. “Não se trata de uma decisão recente, mas de um processo que busca compreender quem são essas pessoas, suas condições de vida e suas trajetórias, de modo a subsidiar a formulação de políticas públicas integradas em nível federal”, completou.
O diretor de Pesquisas do IBGE, Gustavo Junger, destacou o caráter inovador da iniciativa. “Trata-se de um projeto ambicioso, aguardado há muitos anos pelo Instituto. Retratar o Brasil com as informações necessárias ao exercício da cidadania é a missão do IBGE, e a realização deste Censo está alinhada a esse propósito”, afirmou.
A coordenadora técnica do Censo Demográfico, Giulia Scappini, apresentou a página oficial da operação. “Nesse site, vamos compartilhar com a população todas as etapas da pesquisa, que tem como objetivo caracterizar a população em situação de rua, sua distribuição territorial, perfil sociodemográfico e condições de vida”, explicou.
O técnico da Gerência de Indicadores Sociais do IBGE, Bruno Mandelli, detalhou a estrutura dos questionários que serão utilizados na coleta. Segundo ele, os instrumentos foram adaptados às diferentes realidades dos entrevistados, incluindo um questionário específico para crianças de até 12 anos. “A proposta é contemplar essa população com perguntas adequadas a cada contexto, garantindo a qualidade das informações coletadas”, destacou.
Já a gerente de Povos e Comunidades Tradicionais e Grupos Populacionais Específicos do IBGE, Marta Antunes, ressaltou os desafios metodológicos da operação. “Diferentemente dos censos tradicionais, baseados em setores censitários, neste caso foi necessário olhar o território a partir de roteiros específicos. O trabalho de pré-mapeamento, realizado com a colaboração de diversos órgãos e da sociedade, será fundamental para identificar os locais onde essa população se encontra, seja em espaços de acolhimento ou em vias públicas. Estamos incorporando inovações importantes para viabilizar essa metodologia”, afirmou.
Confira como foi o lançamento em Belém (PA) e no Rio de Janeiro (RJ).
