PeNSE

Seis em cada dez estudantes haviam experimentado bebida alcoólica na pré-pandemia

Editoria: Estatísticas Sociais | Umberlândia Cabral | Arte: Brisa Gil

10/09/2021 10h00 | Atualizado em 10/09/2021 11h15

  • Resumo

  • O percentual de escolares entre 13 e 17 anos que já experimentaram bebida alcoólica é de 63,3%.
  • Mais de um terço dos escolares nessa faixa etária (34,6%) havia experimentado ao menos uma dose antes dos 14 anos.
  • Dos escolares que experimentaram bebidas alcoólicas, 47% revelaram ter tido episódios de embriaguez.
  • A principal forma de obtenção de bebida foi em uma festa (29,2%), seguida por compra em mercado (26,8%).
  • Cerca de 22,6% dos escolares haviam experimentado cigarro. Para 11,1%, a experimentação ocorreu antes dos 14 anos.
  • 28,1% haviam bebido pelo menos uma dose nos últimos 30 dias antes da pesquisa.
  • 13% dos estudantes haviam experimentado algum tipo de droga ilícita, como maconha, cocaína, crack e ecstasy.
Quase metade (47%) dos estudantes que experimentaram bebidas alcoólicas relatou episódios de embriaguez. Foto: StockSnap/Pixabay.

Cerca de 63,3% dos estudantes de escolas públicas e particulares entre 13 e 17 anos já experimentaram bebida alcoólica e mais de um terço deles (34,6%) provou pelo menos uma dose antes de completar 14 anos. As meninas são mais expostas a essa iniciação precoce: 36,8%, contra 32,3% entre os meninos. Os dados são da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2019, divulgada hoje (10) pelo IBGE.

A pesquisa retrata a saúde de estudantes de todas as regiões do país e traz temas como violência, saúde mental e uso de drogas. Os dados se referem à realidade dos jovens antes da pandemia de Covid-19, cujas medidas de isolamento social e distanciamento físico do ambiente escolar podem ter agravado a situação.

Para o gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, o uso de bebidas alcoólicas na adolescência está relacionado a problemas de saúde posteriores e aumenta as chances de consumo abusivo na idade adulta. “Os efeitos secundários incluem problemas renais, hepáticos, cardíacos e de desenvolvimento cerebral. São efeitos muitos diversos e, quanto mais precoce for esse uso, maior o risco de doenças crônicas degenerativas que ocorrem em função desse uso prolongado”, diz.

Entre os estudantes que experimentaram bebidas alcoólicas, 47% disseram ter tido episódios de embriaguez. Esse percentual foi maior entre os estudantes de escolas da rede pública (47,6%) do que entre os da rede privada (43,4%). Cerca de 15,7% relataram a ocorrência de problemas em consequência de terem bebido, entre eles estão o conflito com a família ou amigos, a perda de aulas ou brigas.

De acordo com o pesquisador, o consumo abusivo, também levantado pela pesquisa, é diretamente ligado aos episódios de embriaguez relatados pelos estudantes. O uso foi considerado abusivo quando, em uma única ocasião, passava de cinco doses para os meninos e quatro para as meninas. A dose é equivalente a um copo de chope, uma lata de cerveja, uma taça de vinho, uma dose de cachaça ou de uísque.

Entre os adolescentes de 13 a 17 anos, 9,7% relataram ter consumido quatro doses ou mais em um mesmo dia. Nesse indicador, o Sul (12%) e o Centro-Oeste (11,1%) ficaram acima da média nacional. Já Norte (7,0%) e Nordeste (7,8%) apresentaram os menores percentuais. Cerca de 6,9% dos estudantes dessa faixa etária disseram ter bebido cinco doses ou mais em um dia.

“São dois aspectos diferentes do mesmo problema: um é a frequência de consumo, em que podem ser tomadas medidas no sentido de controlar, de dificultar o consumo do álcool pelos adolescentes; o outro é o consumo abusivo, que tem efeitos mais agudos e ainda mais danosos”, explica Andreazzi.

O consumo recente de bebidas alcoólicas também foi abordado pela PeNSE. Cerca de 28,1% haviam bebido ao menos uma dose nos últimos 30 dias antes da pesquisa. Houve diferença por faixa etária: o indicador variou de 22,1% nos escolares de 13 a 15 anos a 38,9% entre os que tinham de 16 a 17 anos. O pesquisador elucida que, à medida que os anos vão passando, o adolescente tem mais oportunidades e estímulos para experimentar bebidas, cigarro e outras drogas, além de adquirir outros comportamentos. Isso pode explicar o maior consumo recente por parte dos estudantes mais velhos.

Entre as questões levantadas também estava o uso de bebidas alcoólicas pelos pais dos adolescentes. Mais da metade dos escolares de 13 a 17 anos (58,9%) respondeu que o pai, a mãe ou ambos consumiam esse tipo de produto, sendo os percentuais maiores no Sul (62,4%), no Centro-Oeste (61,9%) e no Sudeste (61,5%).

Uso do cigarro

A pesquisa também mostrou que 22,6% dos estudantes entre 13 e 17 anos já experimentaram cigarro e, nesse indicador, não houve diferença significativa entre meninos (22,5%) e meninas (22,6%). Cerca de 11,1% dos escolares nessa faixa etária haviam fumado antes de completar 14 anos. Assim como em relação à bebida, a PeNSE também averiguou junto aos adolescentes o consumo atual de cigarros. Cerca de 6,8% dos estudantes haviam fumado nos últimos 30 dias anteriores à pesquisa, sendo o consumo atual maior no Sul (8%) e menor no Nordeste (4,7%).

Outro aspecto levantado pela PeNSE foi a forma de obtenção de cigarro e bebidas alcoólicas. Apesar de a legislação proibir a venda desses produtos para menores de 18 anos, lojas, bares, botequim, padarias ou banca de jornal foram apontados por 37,5% como o lugar onde obtiveram cigarros. Em relação às bebidas alcoólicas, a maioria dos escolares (29,2%) respondeu que conseguiu em uma festa, enquanto 26,8% disseram ter comprado no mercado, 17,7% obtiveram com amigos e 11,3%, em casa, com alguém da família.

“O que isso mostra é que existem atos ilícitos de compra e venda desses produtos. Há, na nossa pesquisa, outras possibilidades de resposta a essa pergunta, mas a compra é a mais frequente forma de obtenção. Ou seja, a legislação não está sendo cumprida adequadamente”, afirma o pesquisador, que ainda destaca o número alto de escolares que experimentam o cigarro antes dos 14 anos. No Sul, esse indicador tem uma grande diferença entre os sexos: 18% das meninas já fumaram antes dos 14 anos, contra 13,5% dos meninos.

Além do uso do cigarro tradicional, a pesquisa investigou o uso de cigarro eletrônico. No Brasil, a importação, propaganda e venda desses produtos são proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A despeito disso, 16,8% dos estudantes já haviam fumado pelo menos uma vez. O maior percentual é encontrado entre os mais velhos: 22,7% nos adolescentes de 16 a 17 anos ante 13,6% entre os que têm de 13 a 15.

“Nos Estados Unidos, o uso do cigarro eletrônico já é considerado uma epidemia. Aqui está sendo difundido recentemente e é algo muito atrativo para os jovens, porque é visto como um produto tecnológico que preserva a saúde. Em geral, há aromatizantes e sabores que ajudam o paladar e, com isso, atraem os adolescentes e até mesmo as crianças”, frisa Andreazzi. De acordo com estudos elencados pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA), os níveis de toxicidade do cigarro eletrônico podem prejudicar a saúde tanto quanto os do cigarro comum.

Segundo o gerente da PeNSE, assim como há apelo para o consumo do cigarro eletrônico pelos jovens, acontece o mesmo com o narguilé, uma espécie de cachimbo usado para fumar tabaco. Em 2019, o produto já havia sido experimentado por 26,9% dos estudantes de 13 a 17 anos, com destaque para os do Centro-Oeste (42,9%). Algumas unidades da Federação ficaram muito acima da média nacional, como Paraná (52,4%), Distrito Federal (50,6%) e Mato Grosso do Sul (48,9%).

13% dos escolares de 13 a 17 anos já usaram droga ilícita

Cerca de 13% dos escolares haviam experimentado algum tipo de droga ilícita, como maconha, cocaína, crack e ecstasy. Entre os estudantes da escola pública (13,3%), a exposição era maior do que entre os da rede privada (11,4%). Regionalmente, os maiores percentuais se encontravam no Sul (16,7%) e Sudeste (16,2%) e os menores, no Nordeste (7,9%) e no Norte (9,3%).

O percentual de jovens cuja primeira experiência com drogas ilícitas aconteceu antes dos 14 anos foi de 4,3%. Em 2015, havia sido de 4,2%. A proporção é maior também entre os alunos da rede pública (4,6%) do que entre os da rede privada (2,7%). “Na maioria das vezes, a iniciação é mais fácil na escola pública por conta do acesso mais facilitado. Nos escolares mais velhos, já podemos observar o acesso a recurso para compra. Isso se manifesta muito no álcool e, possivelmente, também no cigarro eletrônico”, diz o pesquisador.

A pesquisa também levantou o percentual de escolares de 13 a 17 anos cujos amigos usaram drogas ilícitas na sua presença pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores. Essa situação foi relatada por 17,5% dos escolares nessa faixa etária. Para Andreazzi, esse é um indicador de exposição à experimentação de drogas. “Enquanto na experimentação do álcool existe muitas vezes a influência da família, na situação da droga ilícita e do cigarro, o consumo tem mais a ver com a situação do grupo em que o adolescente está inserido. Por exemplo, podemos observar que o consumo do cigarro pelos pais caiu, ao passo que cresceu entre as meninas mais jovens”, diz.

Já em relação ao uso recente, 5,3% dos escolares afirmaram ter usado maconha nos 30 dias que antecederam a pesquisa. O consumo recente variou de 3,4% para os escolares de 13 a 15 anos e de 8,8% para os escolares de 16 a 17 anos. Esse indicador apresentou diferença na distribuição por sexo, sendo maior entre os meninos (5,8%) do que entre as meninas (4,8%).

Retrato pós-pandemia pode ter se agravado

Para o gerente da pesquisa, Marco Andreazzi, é importante destacar que os dados se referem à realidade dos escolares em 2019, antes, portanto, da pandemia de Covid-19 cujas medidas de enfrentamento incluíram isolamento social e distanciamento físico do ambiente escolar. “Tudo isso pode ter sido agravado por consequência da pandemia. Então é importante conhecer o que já vinha acontecendo antes desse período para perceber essa realidade que vai surgir logo após. O fato de a pesquisa ter sido realizada pouco antes da pandemia nos permite ter um ponto de referência para medir os impactos e até orientar as medidas de controle”, conclui.