IBGE registra efeitos do aquecimento global na costa brasileira

Estações da Rede Maregráfica Permanente para a Geodésia (RMPG) do IBGE registraram, no período compreendido entre dezembro de 2001 e dezembro de 2006...

Editoria: Geociências

26/06/2007 09h01 | Última Atualização: 19/03/2018 14h01

Estações da Rede Maregráfica Permanente para a Geodésia (RMPG) do IBGE registraram, no período compreendido entre dezembro de 2001 e dezembro de 2006, elevações anuais médias no nível do mar de 2,5 mm em Imbituba (SC) e de 37 mm em Macaé (RJ). No primeiro caso, o aumento está dentro da média internacional divulgada recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU). No segundo, a forte elevação tem como uma das possíveis causas características geológicas locais. As medições estão sendo referência para os estudos internacionais relacionados às mudanças climáticas, principalmente pelo fato de que todas as estações da RMPG passaram a ser consideradas como estações internacionais do Programa Global de Monitoramento do Nível do Mar da Comissão Oceanográfica Intergovernamental da Unesco (GLOSS/IOC) . As informações coletadas pela RMPG do IBGE no Rio, em Santa Catarina e ainda, mais recentemente, no Amapá e na Bahia, estão disponíveis para consulta na página do IBGE , na área de “Geodésia”, em “Geociências”.

Nos últimos anos, uma nova consciência vem surgindo quanto ao papel do mar, uma das maiores fontes de recursos vivos e biodiversidade do planeta, em relação ao clima global. A busca do entendimento sobre a sua interação com a atmosfera e as percepções de seus aspectos bio-fisico-químicos estão vinculadas aos impactos causados por ele nos ecossistemas, na sociedade e na economia.

O forte interesse público pelas mudanças climáticas globais tem origem na elevação do nível dos mares e no aumento dos riscos de inundação das áreas costeiras. Esses riscos, porém, dependem muito mais das mudanças nas marés e nos regimes de ondas, característicos da costa, do que exatamente do aumento do nível médio dos mares em si.

O IBGE decidiu monitorar o nível do mar, com o intuito de suprir as necessidades da geodésia 1 nacional, porque, desde 1968, após o encerramento das atividades maregáficas do IAGS (Inter-American Geodetic Survey) no Brasil, não havia instituição que desse continuidade à atividade.

O instituto operou uma estação maregráfica, implantada pela Coppe/UFRJ (Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro) no bairro de Copacabana (RJ), entre abril de 1993 e março de 1994. Desde então, as demais estações da RMPG ao longo da costa brasileira vêm sendo implantadas gradativamente. Já existem estações instaladas em Santana – AP (2005), Salvador – BA (2003), Imbituba – SC (2001) e Macaé – RJ (desde 1994, quando um marégrafo convencional da Petrobras foi assumido pelo IBGE e gradualmente aprimorado). Neste ano está prevista a instalação de uma quinta estação maregráfica em Fortaleza (CE)

As estações de Macaé e Imbituba têm, portanto, cinco anos de registros maregráficos simultâneos, por isso foram escolhidas para um estudo preliminar do nível das marés. Ambas medem a “maré observada”, ou seja, o nível do mar, o que corresponderia a uma informação "bruta", com todas as influências meteo-oceanográficas (variações da crosta terrestre, acomodações de camadas dos terrenos, alterações meteorológicas, astronômicas etc.). Os resultados para elevação das marés observadas são as médias simples (gráficos a seguir), que eliminam os efeitos sazonais.

Em Imbituba (SC), evidenciou-se uma tendência de elevação anual de aproximadamente 2,5 mm, considerando que, para o período entre dezembro de 2002 e dezembro de 2006 como um todo, foi registrado um aumento médio de 1 cm. A região é muito suscetível a frentes frias, onde os registros de marés são fortemente influenciados pelas condições meteorológicas.

Esse resultado é coerente com o estudo realizado pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) para a mesma região entre 1997 e 2006, o qual apresentou uma tendência anual de 2,0 mm. Durante esse período, a UFPR efetuou três campanhas – em 1997, 2000 e 2005 – de monitoramento da variação vertical crustal com GPS, obtendo um valor da ordem de -0,8 mm/ano. Se considerarmos a influência dessa variação para os registros do marégrafo, chegaremos a uma tendência de elevação anual de 1,2 mm.

Os estudos que vêm sendo divulgados, em caráter global sobre a tendência de elevação do nível dos mares apontam valores anuais em torno de 1 a 2 mm, logo os dados levantados em Imbituba ficaram bem próximos do previsto. O gráfico gerado não apresentou nenhuma situação anômala (de grande discrepância), o que não significa, entretanto, que não haja necessidade de mais estudos ou da complementação das condições de controle da estação. Nesse sentido, o IBGE instalou em maio deste ano um equipamento GPS (Global Positioning System ou, em português, Sistema de Posicionamento Global, um sistema de navegação e posicionamento por satélite) de operação permanente, para monitorar continuamente o movimento vertical da crosta terrestre nas imediações do marégrafo.

Para Macaé (RJ), no mesmo período de observação, verificou-se uma tendência de elevação anual bastante significativa, de aproximadamente 37 mm. O aumento total entre dezembro de 2002 e 2006 foi de 15 cm. Trata-se de uma situação adversa (discrepante), que precisa de muita atenção. O aumento do nível das águas vem preocupando a prefeitura de Macaé, principalmente quanto à possibilidade de grandes enchentes.

Algumas das possíveis "causas" para esse fenômeno são as seguintes: a) efeitos da geologia local, sobretudo a existência de falhas ativas nas proximidades da cidade - que serão objeto de estudos do DRM/RJ (Departamento de Recursos Minerais do Rio de Janeiro) e do IEAPM (Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira); b) efeitos sistemáticos de uma componente do vento, em razão da localização geográfica de Macaé, o que provocaria empilhamento das águas costeiras; c) efeitos hidrodinâmicos causados pelo crescimento acelerado na região, que estaria provocando alterações nos rios que deságuam em Macaé e adjacências, diminuindo fluxos de água que são responsáveis pelo equilíbrio do sistema de avanço do mar sobre o litoral.

Não é possível afirmar, por enquanto, o motivo preciso da tendência apontada para Macaé. Esforços conjuntos para a realização dessas análises estão sendo realizados pelas coordenações de Geodésia e de Recursos Naturais do IBGE, que tem mantido contatos com a Coppe/UFRJ, o DRM/RJ e o IEAPM, no intuito de detalhar estudos e viabilizar a implantação de um sistema de monitoramento e controle adequados aos padrões internacionais, contribuindo, assim, com as pesquisas globais sobre o nível dos mares. Dentre as iniciativas, destaca-se a instalação de um equipamento GPS até setembro deste ano.

Para realização da medição do nível do mar, o IBGE conta com a colaboração de instituições conveniadas, como o Centro de Hidrografia da Marinha (DHN/CHM), a Petrobras, a Companhia Docas de Imbituba (CDI), a Companhia Docas de Santana (CDSA) e a Universidade Federal da Bahia (UFBA).

As medições realizadas no Brasil, porém, já estão sendo referência para os estudos relacionados às mudanças climáticas. Programas internacionais como o Global de Monitoramento do Nível do Mar da Comissão Oceanográfica Internacional da Unesco (GLOSS/ IOC) têm solicitado o repasse das informações maregráficas e meteorológicas coletadas na costa brasileira.

_____________________________________________

 

Conheça a RMPG - Rede Maregráfica Permanente para Geodésia

 

 1 Geodésia é a ciência que se ocupa da determinação da forma, das dimensões e do campo de gravidade da Terra. Na prática, a atuação do IBGE, responsável no país por essas atividades, caracteriza-se pela implantação e manutenção do Sistema Geodésico Brasileiro (SGB), formado pelo conjunto de estações, materializadas no terreno, cuja posição serve como referência precisa a diversos projetos de engenharia, mapeamento, geofísica, pesquisas científicas, dentre outros.