Transparência

Curso de microdados para jornalistas abre caminhos para reportagens exclusivas

Editoria: IBGE | Pedro Renaux

27/11/2019 12h00 | Última Atualização: 27/11/2019 14h44

É a segunda vez que o IBGE participa da maior conferência de jornalismo de dados da América Latina - Foto: Escola de Dados

O aumento na produção de notícias e reportagens feitas exclusivamente a partir da análise de bases de dados motivou a criação do primeiro curso sobre microdados do IBGE para jornalistas. O treinamento foi oferecido para 25 profissionais no sábado (23), durante a Conferência Brasileira de Jornalismo de Dados e Métodos Digitais, o maior evento do setor na América Latina, em São Paulo (SP).

Os microdados são o nível mais desagregado das pesquisas, o que permite que qualquer pessoa com conhecimento de programação crie seus próprios indicadores. No caso dos jornalistas, o acesso a esse tipo de informação pode significar novas pautas. A Agência IBGE Notícias já deu exemplo de como o trabalho com microdados pode gerar matérias exclusivas, quando revelou que o desemprego no interior é menor, porém concentra quase dois terços das pessoas na informalidade.

Outro exemplo mais recente foi feito pela Agência Pública, que trabalhou com microdados do Censo Agropecuário para mostrar que a área total dos estabelecimentos cujo produtor é branco equivale ao dobro da área dos estabelecimentos com produtores pretos ou pardos. Para essa matéria, os dados foram rodados pelo IBGE a pedido do repórter Bruno Fonseca, que participou do treinamento. “Até pelo nosso caráter investigativo, pensamos em como colocar o IBGE na nossa rotina de uma forma que tenhamos matérias para além da data de lançamento das pesquisas”, disse Bruno.

Durante a atividade, os participantes conheceram conceitos e metodologias da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) e da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS), todas disponíveis no Portal do IBGE.

Também foi apresentado um pacote da PNAD Contínua, espécie de manual para facilitar o download, a importação e a análise dos dados amostrais da pesquisa. “O microdado está no nosso Portal, mas se a pessoa não for especializada em amostragem, ela vai ter dificuldade. A ideia do pacote é que o usuário não dependa desse conhecimento superespecializado para usar corretamente os microdados”, explicou a estatística do IBGE, Luna Hidalgo, que apresentou o curso com o também estatístico, Gabriel Assunção.

“Precisamos contar com os jornalistas para fazer a difusão externa do pacote, até porque isso calibra a nossa linguagem”, disse Luna, complementando que o evento foi uma oportunidade para lançar o curso e identificar o que pode ser aprimorado.

É a segunda vez que o IBGE participou da conferência, que já recebeu um workshop sobre como aumentar a eficiência das buscas em portais especializados do instituto, como o Banco de Tabelas Estatísticas (Sidra) e o Cidades@. “Este ano, a formação com os microdados do IBGE possibilita que o próprio jornalista descubra novas matérias e consiga extrair insights e informações relevantes de forma mais autônoma e independente, possibilitando novos cruzamentos”, disse o coordenador da Escola de Dados, Adriano Belisário, um dos organizadores.

A repórter da Folha de S. Paulo, Marina Gama Cubas, estudou na Espanha e adquiriu experiência com as estatísticas governamentais do país, mas agora ela quer ter mais contato com os dados do IBGE. “Queremos trabalhar mais especificamente com dados da PNAD Contínua, inclusive porque a própria editoria de economia fala que é muito pouco explorado”, contou a jornalista do DeltaFolha, equipe de jornalismo investigativo com dados.

O curso atraiu também profissionais que fazem a cobertura diária do IBGE, como o jornalista do Globo, Pedro Capetti, que espera encontrar boas histórias por trás de cada pesquisa. “Foi uma grande oportunidade de conhecer de perto como são produzidas e trabalhadas as pesquisas que divulgamos, principalmente pela mistura de conceitos estatísticos e de programação envolvidos, distantes da rotina diária da maior parte dos jornalistas”.

Além de representantes de veículos de comunicação, o curso contou com a presença de membros de organizações sociais, como o Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP), que trata o transporte público como meio de desenvolvimento social. “O IBGE é nossa principal fonte, porque vai em todo país e consegue estratificar até o setor censitário”, disse o estagiário de Programas do ITDP, Matheus Dantas.


Palavras-chave: Microdados, PNAD Contínua, PNS, POF, IBGE, Jornalismo de Dados, Coda BR, 2019.