Censo da População em Situação de Rua
IBGE lança primeira prova-piloto do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua, em Goiás
11/06/2026 15h24 | Atualizado em 11/06/2026 15h24
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou, nesta quinta-feira (11), o lançamento da 1ª prova piloto do Censo Nacional da População em Situação de Rua, em Goiás.
O evento serviu para celebrar a integração do IBGE com as prefeituras e demais agentes mobilizadores para divulgar e operacionalizar os testes iniciais do censo, que estabelece, pela primeira vez, um levantamento estatístico nacional dedicado exclusivamente às pessoas em situação de rua.
O lançamento contou com as presenças do presidente do IBGE, Marcio Pochmann; da equipe técnica do instituto, composta pelo diretor de Pesquisas, Gustavo Junger; a coordenadora técnica do Censo da População em Situação de Rua, Giulia Scappini; e a coordenadora substituta da Coordenação Geral de Operações Censitárias, Cynthia Damasceno.
Junger destacou a importância desse censo. "Como retratar o Brasil? Como representar a realidade do Brasil quando você não tem a população em situação de rua nas estatísticas oficiais? Como a gente consegue retratar a realidade, principalmente a urbana, no Brasil hoje sem essas informações? Como a gente produz informações estatísticas que permitam o exercício da cidadania se nem todos os brasileiros fazem parte das estatísticas oficiais hoje? Realizar o 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua não diz respeito só ao atendimento de uma demanda histórica do IBGE, diz respeito ao compromisso do IBGE à sua própria missão institucional. O IBGE precisa responder a esse desafio. Isso é algo que há muitos anos o IBGE vem sendo devidamente cobrado, inclusive do ponto de vista jurídico. Essas demandas sociais eram absolutamente legítimas e hoje finalmente chegamos num momento em que conseguimos apontar ao país uma metodologia consistente para a realização do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua".
O diretor de Pesquisas ressaltou onde serão feitas as provas piloto. "Ela vai percorrer todas as regiões, cinco capitais - Goiânia, Salvador, Florianópolis, Belo Horizonte e Manaus -, e avançar na maturação desse projeto, que terá novos desdobramentos no ano que vem. Finalmente, em 2028, levaremos a campo esse primeiro censo nacional".
A prova piloto possibilita testar os instrumentos de coleta; a composição das equipes técnicas, que, pelo ineditismo da operação, contarão com a presença de facilitadores; e a lógica de percurso dos territórios. Giulia Scappini explicou a diferença com o Censo Demográfico. "A organização por setores censitários, que é como costumamos fazer nas pesquisas domiciliares, seria infactível para esse censo. A exemplo do Censo Demográfico domiciliar, para percorrermos todo o território do país, precisamos de no mínimo 2 ou 3 meses, o que inviabiliza uma coleta célere, que é o que demanda uma população de alta mobilidade para minimizar duplicidade e omissões. Precisamos trabalhar com uma nova forma de pensar o território, que são os roteiros, que podem ser compostos por eixos de logradouros e estabelecimentos, endereços de edificações e classificações específicas para auxiliar a equipe de campo em como lidar com aquele território. Esses roteiros são organizados em zonas de coleta e cada uma delas vai ser recenseada em um dia", disse.
"A proposta é que a gente faça toda a coleta em 4 dias, em média, dependendo do município, no turno da tarde/noite. A hora é um dos pontos de observação dos nossos testes. E a pesquisa precisa acontecer nas mesmas datas em todos os municípios do país para garantir a uniformidade metodológica e permitir a comparabilidade", complementou Giullia.
A coordenadora técnica explicou ainda sobre a contagem dessa população. "Nossa unidade de pesquisa é sempre a pessoa. Então, a gente conta a pessoa presente para garantir a enumeração correta. A unidade de pesquisa é a pessoa dentro de três situações: a rua, as instituições e as ocupações não residenciais, que são um grande desafio, porque muitas das vezes a própria população que habita ocupações não se identifica como população em situação de rua. E o consenso é que as pessoas em situação de rua são as que dormiram nas ruas, instituições ou ocupações não residenciais por pelo menos uma noite nos últimos 7 dias, considerando a data de referência para a coleta. Essa é a nossa triagem, mas não significa que a gente não caracterize para além disso".
Cynthia ressaltou a importância da prova-piloto. "Partindo das especificações e metodologias propostas, todas as orientações técnicas, nós vamos pensar juntos quantas pessoas, locais que vamos visitar, quanto precisa pagar, quanto tempo, que equipamentos vamos precisar. A parte de orçamento é fundamental. E é muito importante a gente testar questionário, equipamento, comportamento, varredura, como vão se comportar os roteiros, as zonas, as idas a campo, parcerias externas".
Giullia falou também sobre o cronograma do novo censo. "O início da 1ª prova piloto é ir a campo de 31 de agosto a 3 de setembro. São 4 dias. Se alguma coisa der errada, a gente precisa identificar na hora para corrigir na hora e não incorrer em um erro incorrigível. A 2ª prova piloto está prevista para outubro de 2027. No ano seguinte, em março, acontece o censo experimental, que é um grande ensaio geral, com todas as etapas. E, em julho, o censo acontece”.
Para o presidente do IBGE, Marcio Pochmann, o 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua pode ajudar a criar políticas públicas para diminuir a desigualdade no país. "Quem produz os dados, quem controla as informações, governa o futuro da nação. E estamos aqui hoje tratando o futuro do Brasil. Se nós vamos continuar reproduzindo a desigualdade que tão bem conhecemos ou se será possível, a partir da identificação desse segmento invisibilizado, criar políticas públicas que possam permitir que daqui a algum tempo nem censo mais seja necessário fazer, porque se tornou uma questão superada. Isso é possível ser superado".
Também estiveram presentes no evento o superintendente estadual de Goiás, Edson Vieira; Vanete Resende, representando o Comitê Intersetorial de acompanhamento e monitoramento de políticas para a população em situação de rua no estado de Goiás (CIAMP RUA); Eduardo Oliveira, representando a Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres e Assistência Social e Direitos Humanos de Goiânia; e Maria Madalena, representando a Pastoral do Povo da Rua em Goiânia.
Lançamentos regionais anteriores e workshop com experiências de censos
Os lançamentos regionais do 1º Censo Nacional da População em Situação de Rua já tiveram etapas anteriores realizadas em abril, marcando o início da mobilização nacional em torno da iniciativa. As primeiras atividades ocorreram em Belém (PA), no dia 27 de abril, seguidas pelo Rio de Janeiro (RJ), em 28 de abril, e por São Paulo (SP), no dia 30 de abril, reunindo gestores públicos, pesquisadores e representantes da sociedade civil.
Os eventos inaugurais contaram com apresentações técnicas do projeto e destacaram o caráter inédito do levantamento, voltado exclusivamente à população em situação de rua. A realização das etapas regionais reforça a estratégia do IBGE de ampliar o diálogo com diferentes territórios e atores locais, consolidando um processo participativo na construção de uma operação estatística de alcance nacional.
Também como etapa preparatória ao Censo, o IBGE realizou o Workshop de Experiências em Censos de População de Rua, reunindo especialistas, gestores públicos, pesquisadores, coordenadores de operações censitárias e representantes da sociedade civil de diversas regiões do país. O encontro teve como objetivo compartilhar experiências, discutir metodologias e incorporar contribuições de diferentes atores envolvidos com a temática da população em situação de rua.
O workshop foi realizado no Rio de Janeiro (RJ), nas instalações da Advocacia-Geral da União (AGU), e incluiu oficinas participativas que promoveram o debate sobre instrumentos de coleta, desafios de abordagem em campo e estratégias para garantir a qualidade e a representatividade dos dados. As atividades reforçaram o caráter colaborativo da iniciativa, assegurando que a construção do Censo considere diferentes perspectivas e realidades territoriais.
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