No DF
IBGE realiza Oficina de Consulta livre sobre Povos e Comunidades Tradicionais em Brasília
11/06/2026 14h12 | Atualizado em 11/06/2026 14h12
Teve início na manhã desta quarta-feira (10), em Brasília, a Oficina de Consulta livre, prévia e informada ao Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT) com a finalidade de avaliar os avanços no processo de mapeamento censitário e a realização da segunda prova piloto do 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola. O evento conta com a presença de dois representantes de cada segmento de povos e comunidades tradicionais para oficina a ser realizada no Edifício do Banco do Brasil, localizado na Asa Norte, nos dias 10, 11 e 12 de junho.
A Oficina tem como principais objetivos: expor os avanços da cartografia censitária e obter retorno dos participantes sobre aprimoramentos necessários e contatos de lideranças regionais e locais para as localidades não mapeadas; apresentar a avaliação da segunda prova-piloto do 12º Censo Agropecuário, Florestal e Aquícola, informando se serão necessárias alterações para o Censo Experimental; e realizar gravações em vídeo com as lideranças presentes para subsidiar material de treinamento e de disseminação do censo.
Mesa de abertura
Para o Diretor de Pesquisas do IBGE, Gustavo Junger, a realização da Oficina é importante para a própria missão do IBGE: “Não há como retratar o Brasil com informações para se conhecer a sua realidade, na qual os brasileiros consigam exercer sua cidadania, sem a ampliação da informação sobre os povos e comunidades tradicionais. O Brasil é um país com uma diversidade incrível. São mais de vinte povos e comunidades tradicionais e o IBGE tem, sim, o compromisso de representar as populações tradicionais, de avançar na representação dessas populações nas estatísticas oficiais”, afirma.
A gestora do Ministério do Meio Ambiente, Cláudia de Pinho, destacou a relevância dessa iniciativa: “É um ganho para a instituição, mas também é um ganho muito maior para o Estado brasileiro, quando inclui os povos e comunidades tradicionais para serem os protagonistas dessa visibilidade. Estar nos dados estatísticos e dentro do Censo agropecuário, florestal e aquícola coloca, com toda certeza, os PCTs num novo patamar político e de gestão do governo federal”, acrescenta.
De acordo com a gerente de territórios tradicionais, Maria Giulia, o principal objetivo da oficina consiste em: “Fazer a consulta com as lideranças dos PCTs através do Conselho Nacional dos Povos e Comunidades Tradicionais para confirmar e trazer novas atualizações para o mapeamento desses povos para serem editados na base territorial do IBGE com a finalidade de ir a campo no 12º Censo Agropecuário, florestal e aquícola”, explica. O principal desafio, segundo Maria Giulia, é a falta de uma base de dados que contemple todas as 28 comunidades e povos tradicionais.
Povos e Comunidades tradicionais presentes
Dentre os povos que participaram deste primeiro dia de oficina estavam representantes dos caiçaras, pantaneiros, povo pomerano, raizeiros, caatingueiros, extrativistas costeiros e marinhos, ciganos, povos indígenas e comunidades de terreiro e de matriz africana.
Alice Silva, de Belo Horizonte (MG), é representante da articulação Pacari e do coletivo Roots Ativa e participou do diálogo com o IBGE em nome da sua comunidade e destacou a importância da iniciativa para fortalecer o trabalho de base desenvolvido por raizeiras: “É de grande importância esse movimento para fortalecer quem já realiza esse trabalho de base. Que a gente siga essa caminhada com mais força ainda”, deseja.
Representante da comunidade cigana Calin, a senhora Maura Ney Piemonte ficou feliz com a inclusão do seu povo na coleta do censo: “Eu estou muito grata por estar aqui participando, porque estamos no Brasil há bastante tempo e nunca fomos contados. Essa é a nossa oportunidade de dizer ‘eu existo’. Somos brasileiros de origem cigana”, declara Maura.
Líder da Brigada voluntária do Pantanal em Corumbá no Mato Grosso do Sul, Vera Lúcia Batista, revela sua expectativa para a oficina: “Nesses três dias, eu quero ter conhecimento para levar para minha comunidade. Também acho muito importante a realização do censo dentro da nossa comunidade e estou muito feliz de participar dessa oficina”, afirma.
Cipozeiros e Cipozeiras
O artesanato com cipó sustenta econômica e culturalmente comunidades de Garuva (SC) e outras localidades do litoral paranaense. Extraído de forma sustentável da Mata Atlântica por meio da técnica conhecida como “coxar”, o cipó passa por um longo processo até se transformar em peças artesanais. No entanto, a atividade enfrenta desafios como a dificuldade de acesso à mata e o envelhecimento dos mestres extratores, que concentram os conhecimentos tradicionais sobre o manejo da planta.
Vilma Fernandes Hernaski, cipozeira, destacou a importância da organização comunitária e da realização de um censo agro para dar visibilidade ao grupo. “É essencial saber onde a gente está e quais são as nossas necessidades”, afirmou. Segundo ela, o levantamento pode aumentar a representatividade dos artesãos e fortalecer a busca por direitos e políticas públicas, especialmente diante das dificuldades de acesso às áreas de coleta. Criada em março deste ano, a associação local também aposta em oficinas e na diversificação dos produtos como estratégias para preservar o ofício, gerar renda e garantir a continuidade dessa tradição.
A força das mulheres artesãs e a transmissão dos saberes ligados ao cipó-imbé também foram celebradas em forma de poesia durante o encontro. Vilma destacou o papel das mulheres como guardiãs desse conhecimento. “Desbravaram caminhos, teceram histórias com o cipó-imbé. Arte viva, que atravessa gerações. Cada trançado, cada nó, uma luta narrada. Cada traço, cada forma, uma memória guardada. Mulheres arteiras, guardiãs do saber, com o cipó-imbé, a nossa história vamos tecer”, declamou.
Extrativistas de Marajó
Apesar de conquistarem cada vez mais espaços, as mulheres extrativistas ainda cobram maior representatividade nos processos decisórios e pensam em um recenseamento que espelhe a realidade dos povos tradicionais por meio da coleta de dados feita também pelos próprios moradores, uma vez que existem gargalos como saneamento, comercialização e escoamento da produção que são melhor percebidos pela comunidade.
Apesar de conquistarem cada vez mais espaços, as mulheres extrativistas ainda cobram maior representatividade nos processos decisórios e pensam em um recenseamento que espelhe a realidade dos povos tradicionais por meio da coleta de dados feita também pelos próprios moradores, uma vez que existem gargalos como saneamento, comercialização e escoamento da produção que são melhor percebidos pela comunidade.
A liderança local defendeu a inclusão da comunidade nas pesquisas: “Então o Censo pra mim tem que ser amparando todos os segmentos, seja extrativista, pescador, ribeirinho, enfim, todos os segmentos. O nosso carro-forte é o extrativismo do açaí e esse passo, da participação no censo agro, é muito importante para avançarmos”, enfatizou Clecya.
Durante sua apresentação, Marta Antunes, gerente de Povos e Comunidades Tradicionais e Grupos Populacionais Específicos, destacou que o IBGE colocará suas agências à disposição para prestar apoio durante as inscrições aos interessados, nas comunidades, em participar do processo seletivo para o Censo Agro. Informou também que haverá divulgação da data de realização do certame para as lideranças, com o objetivo de ampliar a participação dos diversos segmentos, povos e comunidades.
